sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Cop, James B. Harris, 1988



Policiais como Cop também são coisa que já não se vê todos os dias. Aliás, já não se vêem, nos cinemas, muitos policiais: o género mudou-se de armas e bagagens para a televisão, acompanhando a mudança do próprio paradigma do género policial, que é hoje (vide CSI e derivados) científico, tecnológico, forense. Feito em 1988, Cop é outro caso de um filme dos “desconhecidos” (ou pelo menos esquecidos) anos 80 que lembra mais o que estava para trás do que o que ainda estava por vir. Precede mesmo o policial como “exercício de estilo”, que futuramente se pareceu tornar uma das poucas abordagens ainda possíveis ao género (pensamos em LA Confidential de Curtis Hanson, ou na Black Dahlia de De Palma, por ambos serem, como Cop, extraídos a romances de James Ellroy, e também porque James B. Harris, realizador de Cop, foi o produtor executivo do filme de De Palma).

De resto, James B. Harris (nascido em 1928) foi, na sua carreira, mais vezes produtor do que realizador. E como produtor, é particularmente notável a sua associação com Stanley Kubrick, com quem trabalhou em três filmes rodados em sequência (ou quase, porque pelo meio houve o especialíssimo caso de Spartacus), que foram The Killing, Paths of Glory e Lolita, entre o final dos anos 50 e o princípio dos anos 60, acompanhando, portanto, a chegada de Kubrick à “linha da frente” do cinema americano. Como realizador, Harris não assinou, entre os anos 60 e os anos 90, mais do que cinco filmes (Cop foi o penúltimo), o que dá praticamente um filme por década (a excepção foram justamente os anos 80, em que Harris dirigiu dois filmes).

E não é que Cop tenha muito a ver com The Killing (porventura, em termos de produção, o último “pequeno filme” de Kubrick) mas a memória desse tipo de factura artesanal, muito pragmática, muito seca (e razoavelmente bruta) está por inteiro no filme de Harris. É engraçado que o eco das críticas de época a Cop (que não teve um acolhimento propriamente espectacular) insista sobretudo na pouca consistência do “plot”, nos seus buracos e non sequitur, na dificuldade em perceber, em certos momentos, como se passou de A a B. Também o The Big Sleep de Hawks é assim, ou o Kiss Me Deadly de Aldrich, pode-se contrapor, e decerto que com toda a razão. Sem ser um Big Sleep, nem mesmo um Kiss Me Deadly, o filme de Harris desloca, como eles, o centro do seu interesse: não é a recomposição ordenada e certinha de uma narrativa, mas um trajecto, um movimento, uma aura – um ambiente, psicológico mas não só, onde todas as linhas (as do bem e as do mal, as da lei e as do que está fora da lei) foram deturpadas e misturadas, e cuja expressão se encontra concentrada no próprio protagonista, James Woods, anti-herói de um tipo como desde Spillane ou Chandler houve cada vez menos. Como tantas vezes nas personagens de Woods, o seu polícia transporta uma espécie de loucura, uma visão do mundo alterada e condicionada pelo contacto constante com a sordidez e o crime. Em bom português, não é exemplo para ninguém, ou é exemplo politicamente incorrecto, em todos os sentidos da expressão. Veja-se a (única) sequência que o mostra em contexto familiar, a contar à filha pequena uma história antes de dormir, que é a história de algum homicídio horroroso que ele resolveu. Percebe-se pela reacção da miúda que é habitual ele adormecê-la com histórias do género, e quando a mulher o questiona (“you’re a sick man”) ele defende-se dizendo que a filha deve estar “preparada” porque “a inocência mata” (frase que fica a pairar sobre o filme, e de algum modo “comenta” a razão de ser da sequência de crimes que Woods investiga). Este é um polícia que, obviamente, já não acredita em “bullshit” nenhum, sejam lirismos seja a lengalenga institucional da corporação para que trabalha. É um “maverick” dentro (e fora) do sistema, que obedece às suas obsessões e compulsões com mais afinco do que às conveniências e “procedures” que a instituição policial lhe impõe (ou tenta impor).

O “programa” do filme é transportar esta personagem ao longo dos passos da investigação e identificação dos crimes de um serial killer. E o “transporte” conta mais, até nos apartes (“please don’t call me a policeperson”…) do que a essência da investigação, que pode ficar tão implausível como provavelmente já era na matriz de Ellroy. Aliás, se a personagem gosta pouco de “bullshit” James B. Harris também – talvez alguns “saltos” e algumas elipses se justifiquem por aí, como se Cop procurasse uma narração sempre para à frente, sem interlúdios de qualquer tipo (e o que por vezes parece um interlúdio, como as cenas de “intimidade” com as mulheres, primeiro a prostituta depois a “livreira feminista”, vem-se a verificar que não é). Uma secura total, em acompanhamento perfeito da heterodoxia da personagem. Até ao fim: a última frase da última cena, “i don’t give a fuck”, assinala o prodígio de “incorrecção” que é o fecho deste filme – a todos os níveis, inclusivamente político. Segue-se uma breve pausa com o ecran a negro, para o espectador ter tempo de perceber como foi “apanhado” antes de sobre esse negro começar a correr o genérico final. Podia ser – sem favor – qualquer coisa encontrada num filme de Clint Eastwood, num Dirty Harry qualquer (nesse ponto, se não antes, o parentesco, remoto ou próximo, torna-se gritante). Eventualmente, até mais bruto do que alguma vez Clint ousou.


LMO