Para começar, algumas citações das notas de Eisenstein sobre as suas ideias (poder-se-ia discutir se chegou a ser um “projecto”, ou apenas o anúncio, quase solipsista, de um projecto que acabou por nunca existir para além dos seus apontamentos) para um filme baseado em Das Kapital de Karl Marx: “Acredito que os filmes do futuro irão nesta direcção (…) e que, no mínimo, se relacionarão com a filosofia”; “a estrutura da obra derivará da metodologia do filme-palavra, filme-imagem, filme-frase”; “em conexão com O Capital, 'estímulos', isto é, materiais sugestivos, devem ser incluídos”; “o objectivo de O Capital está agora formulado: ensinar o trabalhador a pensar dialecticamente. (…) Mostrar o método da dialéctica, o que significa (cerca de) cinco capítulos não-figurativos (ou seis, ou sete, etc). Análise dialéctica de acontecimentos históricos. A dialéctica nos problemas científicos. A dialéctica da luta de classes (no último capítulo)”; “ainda me é complicado pensar num imaginário 'extra-temático', mas não me preocupo, ça viendra!”. Ainda a propósito disto, do grau de desenvolvimento em que Eisenstein teria deixado este seu esboço de projecto (que, mesmo que nunca lhe tenha eventualmente abandonado o espírito, não foi objecto de um esforço consistente, da parte do cineasta, e até à sua morte em 1948, para o materializar), alguns comentadores notam que estas ideias e apontamentos são contemporâneos do período em que Eisenstein trabalhava – sob o enorme stress de ter que cumprir “deadlines” rígidos – na montagem de Oktyabr, que radicam em muito das pesquisas e achados do cineasta durante esse trabalho de montagem (e portanto, para um espírito fervilhante como era o dele nessa época, estão já “um filme à frente”, apontam para uma consequência do trabalho que tem em mãos), e ainda que este foi um período em que Eisenstein viveu numa sobrecarga de energia física e intelectual induzida pelas anfetaminas que trouxe à sua dieta para lidar com a pressão – e poder trabalhar mais horas consecutivas – da montagem do filme sobre o aniversário da Revolução de Outubro. A que se junta outra influência poderosa – e dizem alguns, a influência decisiva – que constituiu a descoberta por Eisenstein do Ulisses de James Joyce (e um encontro com o escritor irlandês). Noutro fragmento das notas de Eisenstein – onde fala de contar a história de “um centímetro de uma meia de seda” (para através desse “centímetro” fazer entrar todas as implicações desde a produção de meia de seda ao seu uso) – talvez seja legítimo ver uma “contracção/expansão” do espaço e do tempo conceptualmente muito aproximável daquilo que se encontra no romance de Joyce.
Serve este parágrafo inicial para, além de dar um pouco de “contexto”, frisar que, ao contrário do que às vezes se lê, Nachrichten aus der Ideologischen Antike (título belíssimo, em qualquer caso) não é uma “adaptação” do Capital segundo um projecto de Eisenstein, mas a imaginação (ou materialização; engraçado como, no cinema, as duas palavras podem ser sinónimas) de um filme feito a partir desses pressupostos alinhados por Eisenstein. Tudo o que Kluge tinha era isso: um conjunto de ideias e apontamentos, e obviamente nenhum “script” recebido em legado. Isso, e uma distância de oitenta anos face ao tempo de Eisenstein, já sem URSS há quase vinte anos, numa época empenhada em decretar a caducidade do marxismo (politicamente), e (cinematograficamente) em afirmar o predomínio do “espectáculo”, da ligeireza do “entertainment”, do esvaziamento do objecto-filme enquanto lugar de discussão (ou de “dialéctica”). O gesto de Kluge, propôr um regresso a Marx, e fazê-lo (monumentalmente) através do cinema, tem portanto um duplo significado político – que em si mesmo configura igualmente um regresso a Eisenstein: se é duvidoso que o “cinema do futuro”, conforme “profecia” supra-citada, tenha tendido para a “relação com a filosofia”, o gesto de Kluge (e o filme de Kluge) também tratam de “realinhar” o “futuro do cinema” de acordo com o “wishful thinking” de Eisenstein.
Não deixa de ser espantoso como este filme imenso (em todas as suas versões: a “abreviada” de hora e meia, a “intermédia” de seis horas, a “integral” de nove horas e meia que ainda deve ser possível encomendar pela internet numa edição em DVD) resiste a todos os cotejos com as notas de Eisenstein. A “relação com a filosofia”, ou menos empoladamente, com o pensamento (valendo frisar a presença de alguns dos mais destacados pensadores europeus contemporâneos, como Sloterdijk ou Enzensberger), que é desde logo, digamos, a matriz, a raiz e a razão de ser de um tal filme; aqueles conceitos de “filme-palavra”, “filme-imagem”, “filme-frase”, até num sentido muito imediato – o de Nachrichten se depositar em muitos momentos na palavra escrita, na frase construida como imagem (o desenho dos intertítulos), num texto dado em relâmpagos que tantas vezes estabelece com um imagem uma relação do tipo de um “efeito Kulechov” (um dos aspectos que aproximam o filme de Kluge daquele que, por todas as razões e mais algumas, deve ser o único objecto que lhe é comparável, factualmente comparável, no cinema contemporâneo: as Histoire(s) du Cinéma de Jean-Luc Godard); os “estímulos” e o emprego de “materiais sugestivos”, que no caso do filme de Kluge são, por exemplo, a incontável quantidade de imagens de arquivo, de momentos musicais, os pequenos apontamentos ficcionais ou teatrais, a visita do humor, da farsa e da mascarada (os momentos com o seu cúmplice de outros filmes Helge Schneider), que também propiciam, nos raccords e nas associações, nos contrastes e nas sobreposições, e o próprio Kluge usou o termo numa entrevista, uma “montagem das atracções” (acrescentando, nessa mesma entrevista, que isso, “montar atracções”, é para ele a vocação do cinema, até a do cinema mais espectacular e “popular”, com que Kluge, de resto, nunca quis quebrar o laço – laço que, acrescentaríamos, está bem visível em Nachrichten e na sua dimensão “espectacular”). E etc, etc, etc.
Nachrichten é assim uma espécie de Arca de Noé, “Arca de Alexandre”, onde se resgatam e guardam oitenta anos (ou mais: para Kluge, a História começa sempre “antes”) de História e pensamento, de Marx e Eisenstein, de cinema e vida política, entre muitos outros pares recombináveis. É um filme sobre “tudo”, a única forma de contar a História segundo Kluge. É por isso que, derradeira observação, as suas características específicas, por muito marcadas que sejam, não abrem nenhuma ruptura signficativa com o cinema de Kluge – nem com o “antigo”, feito no tempo da película, nem com o “moderno”, feito no tempo do video (o que é outro grande paralelismo possível entre Kluge e JLG). De certa forma, todo o cinema de Kluge podia ter nascido naquelas notas de Eisenstein, todo o seu cinema pode ser a expressão de que Eisenstein, 80 anos depois, vive.
LMO
